Thursday, March 31, 2016

O MARINHEIRO, Fernando Pessoa

"Terceira (numa voz muito lenta e apagada). - Ah, é agora, é agora. . .  Sim, acordou alguém... Há gente que acorda. . . Quando entrar alguém tudo isto acabará. . . Até lá façamos por crer que todo este horror foi um longo sono que fomos dormindo. . . É dia já. . . Vai acabar tudo... E de tudo isto fica. minha irmã, que só vós sois feliz, porque acreditais no sonho. . ." (pag. 125, Pessoa).

O Marinheiro é uma peça que não entendi de nenhum jeito a primeira vez que li. Mas depois de ler de novo e discutir o significado dela em nossa aula, comecei a entender que é mais do que uma bagunça de idéias--é uma obra que questiona a existência do humano e o que é a realidade.

Aqui, uma das personagens está com medo de alguém acordar e terminar a existência dela e suas duas amigas. Elas não sabem se elas são pessoas reais ou o sonho de alguém, então têm esse medo. Acho que o medo é mais do que simplesmente não existir. Pessoa está tentando expressar o medo que os humanos têm de descobrir o resultado das coisas. A personagem não está expressando seu medo de não existir mais, mas está com medo de alguém acordar porque quando essa outra pessoa, fora da existência dela acordar, ela vai saber se ela realmente existe ou não. Por alguma razão, a situação em que estamos agora parece mais confortável do que virá, no mesmo sentido que não entendemos porque as personagens da peça prefirem ficar no seu estado de questionar sua existência, mas pela reação delas á possibilidade de alguém acordar, podemos ver que elas prefirem ficar na escuridão do que ter um "fim" à noite delas. Nós também somos assim naturalmente. O "fim" para nós é, as vezes, melhor do que a situação em que nos encontramos agora, mas também sempre existe a possibilidade que o fim seja pior e temos medo daquela possibilidade. Temos medo do que não conhecemos, do que não temos certeza, então muitas vezes preferimos ficar na presente situação só para evitar o desconhecido. E é isso que Pessoa expressa nessa citação da peça dele.

Thursday, March 24, 2016

O Berimbau

Banda missionária de capoeira
Artefato: Berimbau (em minha mão acima na foto)
Autor da foto: Rosângela Pinto
Data da foto: 7 de junho 2014
"Venue of Publication" da foto: Brianna in Brazil Blog (http://sisterbriannaball.blogspot.com/2014_06_01_archive.html)

O berimbau é um instrumento com uma origem desconhecida que é usado para acompanhar em fazer música de capoeira e foi introduzido ao Brasil com a chegada dos Angolanos (https://capoeiraaltoastral.wordpress.com/sobre-capoeira/o-berimbau/).
No começo do terceiro ato de O pagador de promessas, dois homens tocam berimbau enquanto alguns outros estão lutando/dançando capoeira num círculo. Se afilia com uma das personajens, Coca, quem é um mestre de capoeira.


Wednesday, March 23, 2016

O PAGADOR DE PROMESSAS, Dias Gomes

"Padre: Este homem teve todas as oportunidades para arrepender-se. Deus é testemunha de que fiz todo o possível para salvá-lo. Mas ele não quer ser salvo. Pior para ele. . .
[Zé] dá ainda um passo em direção á igreja e cai morto.
Padre: (Num começo de reconhecimento de culpa.) Virgem Santíssima!. . . Queria encomendar a alma dele. . ." (Gomes, pag. 151, 153)

Aqui, antes da morte de Zé, o Padre da igreja católica está convencido que Zé é um homem mal e não tem nenhum desejo de ajudá-lo. Ele o vê quase como um filho do diabo porque está tão focado em fazer a coisa certa de acordo com a letra da lei de Deus, mas não com o espírito da lei. Ele é assim porque quer impressionar os homens e provar-se a eles, mais do que a Deus. Depois da morte de Zé, o Padre se dá conta de que aconteceu e sente culpa que não fez mais para evitar o problema. Ele até quer ajudar e encomendar a alma de Zé.

Gomes está ilustrando o que acontece quando somos tão convencidos em nossos caminhos e crenças até que alguma coisa horrível acontece e sentimos culpa por aquela coisa ter acontecido. Somos como um irmão maior arreliando seu irmão menor--tudo é divertido até que o irmão menor se machuca e depois é quando o irmão maior se dá conta do que fez porque sente culpa. Muitas vezes, essa culpa não vem de arrependimento sincero mas porque não quer ser castigado. No momento, o irmão maior vai sentir aquela culpa, mas alguns dias ou algumas horas depois, vai continuar a arreliar seu irmão menor. Acho que foi assim também com o Padre. Ele estava tão absorto na letra da lei que não se deu conta do mal que fez até que as consequências, ou a morte de Zé, se mostraram. Mas ainda assim, só sentiu pena do mal tal vez não porque se arrependeu de verdade, mas porque uma coisa mal aconteceu. Acredito que não muito tempo depois da morte de Zé, o Padre voltou a ser obstinado e um homem que cumpria a lei não só porque era uma obrigação de Deus, mas também porque queria se provar aos outros.

No fim, a diferença entre o Padre na peça e um Padre ideal é o motivo de suas ações. O motivo do Padre na peça era para se provar aos homens e foi por causa disso que muito do que aconteceu aconteceu.

Friday, March 18, 2016

O PAGADOR DE PROMESSAS, Dias Gomes

"Zé: (Balança a cabeça na maior infelicidade.) Não sei, Rosa, não sei... Há duas horas que tento compreender... mas estou tonto, tonto como se tivesse levado um coice no meio da testa. Já não entendo nada. Parece que me viraram pelo avesso e estou vendo as coisas ao contrário do que elas são. O céu no lugar do inferno, o demônio no lugar dos santos.
Rosa: (Refletindo na própria experiência.) É isso mesmo. De repente, a gente percebe que é outra pessoa. Que sempre foi outra pessoa. É horrível.
Zé: Mas não é possível, Rosa. Eu sempre fui um homem de bem. Sempre temi a Deus.
Rosa: (Concentrada em seu problema.) Zé, isso está parecendo castigo!
Zé: Castigo? Castigo por quê? Por eu ter feito uma promessa tão grande? Por ter sido no terreiro de Maria de Iansã? Mas se Santa Bárbara não estivesse de acordo com tudo isso, não tinha feito o milagre.
Rosa: Zé, esqueça Santa Bárbara. Pense um pouco em nós.
Zé: Em nós?
Rosa: Em mim, Zé.
Zé: Em você?
Rosa: Sim, Zé, em mim, sua mulher.
Zé: Que é que você quer? Não dormiu, não descansou?" (pag. 76-77, O pagador de promessas, Gomes).

Quando li essa passagem pela primeira vez, a achei um pouco engraçada. Aqui, Zé e sua mulher estão falando de negócios sérios--Zé está preocupado com a situação espiritual dele (por causa de forças exteriores, não consegue cumprir uma promessa que fez com a Santa Bárbara) e a Rosa está sentindo culpa depois de dormir com um outro homem sem o Zé saber. Ela também está no processo de se descobrir. É claro para Rosa por que Zé está tão angustiado porque ele fala abertamente sobre a situação dele e ela tem estado lá para cada parte da situação, mas ele não faz idéia do que Rosa está sentindo, nem do que ela fez.

Gomes, o autor, pinta uma imagem perfeita do relacionamento típico entre o homem e a mulher. Achei essa parte da peça engraçada porque esse tipo de coisa acontece sempre. A mulher quer que o homem leia os pensamentos dela e o homem nem sabe que existe um problema. Rosa está quase atormentada pela situação emocional dela mas Zé, não entendendo nada, simplesmente faz a pergunta "Não dormiu? Não descansou?" Gomes está exagerando a tendência do homem supor que geralmente tem uma solução física enquanto a mulher sempre busca ajuda emocional.

Thursday, March 10, 2016

CÍRCULO VICIOSO, Machado de Assis

“Mas a lua, fitando o sol, com azedume: / ’Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela / Claridade immortal, que toda a luz resume!’” ("Círculo vicioso", Machado de Assis).

Através da personificação em seu poema "Círculo vicioso", Machado de Assis expressa que pessoas sempre estão buscando ser algo maior e melhor por falta de olhar dentro de si mesmo e reconhecer os talentos e as bênçãos que já possuem. Ele usa a lua como um de muitos exemplos desse concepto em seu poema. Antes de introduzir a lua, Machado escreve de uma estrela que quer muito ter a glória e a luz da lua. Então enquanto a estrela está desejando ser como ela, a lua está cobiçando a habilidade do sol. Porque está tão distraído querendo ser mais como o grande sol, não consegue apreciar sua própria habilidade de refletir e fornecer luz durante os momentos mais escuros da terra. Nem o sol, em toda sua glória, consegue fazer isso, mas é um talento magnífico da lua. Ainda assim, ela só quer ser mais. Para ela, esse talento não é uma coisa que merece reconhecimento ou um elogio porque nem ela o reconhece.

Com esse exemplo da lua, Machado nos ensina que os seres humanos também são assim--eles tem esse desejo irracional de ser algo que não podem ser porque não conseguem ver suas próprias bênçãos ou seus próprios dons e talentos. Eles ficam tão distraídos pelos bens dos outros que não reconhecem a glória de sua própria vida. Uma coisa interessante é que a lua nunca será o sol--não importa o quanto ela deseja que se torna uma bola de fogo, nunca acontecerá. Também existem coisas que eu nunca serei. Não estou dizendo que não devemos correr atrás de nossos sonhos, mas devemos aprender a apreciar o que já temos e ampliar aqueles bens e dons. É depois de agir que tal vez possamos alcançar mais e ficar mais como o que queremos, mas o ato de cobiçar não nos levará para nenhum lugar.

Thursday, March 3, 2016

SÚPLICA, Noémia de Sousa

"Podem desterrar-nos, / levar-nos / para longes terras, / vender-nos como mercadoria, /  acorrentar-nos /  à terra, do sol à lua e da lua ao sol, / mas seremos sempre livres / se nos deixarem a música!" (Súplica, Noémia de Sousa).

Esse poema me tocou muito quando li pela primeira vez. Foi escrito para fazer um ponto da importância da música na cultura da autora. Ela diz que as pessoas cruéis podem tirar tudo, completamente tudo, da vida dela e de seu povo, mas se ainda tiverem a música, eles serão livres sempre e terão tudo que precisam. Acho interessante porque durante o poema inteiro, ela menciona tantas coisas lindas que essas outras pessoas podem tirar da vida dela--a luz do sol, a lua da selva moçambicana, seu lar, tudo que ela tem--mas para ela, são simplesmente coisas lindas. Ela acredita que não precisa dessas coisas para ser livre.

Em nossas vidas, também existem númeras coisas lindas que, muitas vezes, acreditamos que são necessárias para viver, mas realmente não são. Se pensarmos no que realmente é preciso para viver, podemos reconhecer isso.

Se tivermos que tirar tudo de nossas vidas menos uma coisa só, o que ela seria? Para essa mulher, a coisa mais importante, que define quem ela é e a cultura dela, é a música. Cada pessoa tem sua própria versão dessa música. Pode ser família, amigos, natureza, comida, religião. Cada um de nós tem uma "música" que nos liberta e protege nossa existência. Qualquer coisa pode acontecer conosco, mas se tivermos nossa "mùsica", tudo estará bem.

Thursday, February 25, 2016

EPÍLOGOS, Gregório de Matos

"E que justiça a resguarda?........Bastarda / É grátis distribuída?.........Vendida / Que tem, que a todos assusta?.........Injusta. / Valha-nos Deus, o que custa, / o que El-Rei nos dá de graça, / que anda a justiça na praça / Bastarda, Vendida, Injusta" (Gregório de Matos, Epílogos).

O poema Epílogos é uma obra literária que era muito audaz pela época em que foi escrita. O autor tinha muito couragem para escrever uma coisa assim. Ele estava criticando todo mundo; se alguém ficasse com raiva dele, seria todas as figuras de autoridade, e ele não teria ninguém para defendê-lo. Mas ele reconhecia que as coisas precisavam de uma mudança e estava disposto a ser a voz para advertir essa necessidade, apesar das consequências.

Nessa seção do poema, ele está criticando como o que deve ser grátis agora não está mais. Usa o exemplo de justiça. É uma coisa que deve ser de graça sempre--uma bênção de Deus, mas com a corrupção das pessoas, se tornou uma coisa vendida. As pessoas estão tentando vender essa justiça e a graça de Deus e ele não gosta disso. Não acha justo mas, ao contrário, acredita que é injusto. Quer uma mudança e está disposto a fazer qualquer coisa para iniciar essa transformação, ou esse retorno ao que é certo.

Thursday, February 18, 2016

O MORCEGO, Augusto dos Anjos

"Pego de um pau. Esforços faço. Chego / A tocá-lo. Minh´alma se concentra. / Que ventre produziu tão feio parto?! / A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça, à noite, ele entra / Imperceptivelmente em nosso quarto!" (Augusto dos Anjos, O morcego).

O significado do poema "O morcego" é facilmente encontrado no último terceto. O autor escreve de um morcego e no fim, o compara com a consciência humana. No começo, o narrador está tentando ir para dormir, mas logo depois de entrar e recolher-se ao seu quarto, um morcego entra e incomoda o narrador. Ele tenta fazer o morcego ir embora ou pelo menos escapar a presença do bicho, mas não consegue. Como diz no fim, não importa o quanto ele tenta--o morcego sempre entra e é difícil, quase impossível, tirá-lo.

Muitas vezes, essa mesma coisa acontece com a consciência humana. Por mais que tentamos empurrar atrás as coisas escuras do passado, sempre aparecem na mente de novo. Estão lá até que nos arrependermos delas. No poema, ele diz que o morcego é igual a um olho, circulando sobre ele. A consciência humana também faz isso. Paira sobre nós até que não tiver mais razão para estar lá. No poema, o narrador tenta tirar o morcego com forço, com violência, mas, como a consciência humana, só pode ser tirado com tempo e sabedoria.

HOMEM NO MAR, Rubem Braga

"Não desço para ir esperá-lo na praia e lhe apertar a mão; mas dou meu silencioso apoio, minha atenção e minha estima a esse desconhecido, a esse nobre animal, a esse homem, a esse correto irmão" (Rubem Braga, Homem no mar).

"Homem no mar" é uma crônica que conta a experiência de uma pessoa olhando para o mar e vendo um homem nadando lá na água. O narrador passa a crônica inteira explicando que admira muito esse homem de longe, mas não acha necessário ir até a praia para dar seu apoio. Simplesmente fica o admirando por uma janela (ou alguma coisa assim) em silêncio.

As pessoas do mundo real também são assim. O narrador usa o homem que está nadando no mar como um símbolo das pessoas que nós também admiramos de longe. As vezes são pessoas amadas em nossas vidas, as vezes são conhecidos e as vezes não las conhecem pessoalmente. Podem ser humanos que vivem agora ou que viviam no passado. Mas existem essas pessoas que respeitamos. Não sentimos uma necessidade de expressar essa fascinação por alguma razão mas ainda a sentimos. Tal vez não faça sentido não cumprimentar essas figuras de admiração mas é assim que somos como humanos. A maioria das vezes, as coisas que fazemos não fazem sentido. Tão como na crônica, isso é uma questão que podemos passar a vida inteira tentando solucionar.

O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA, José Saramago

"Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és. . . " (José Saramago, O conto da ilha desconhecida).

Essa frase resume muito bem uma idéia que está apresentada nesse conto, que nós, como humanos, sempre estamos procurando algo melhor em nossas vidas. O homem que pede um barco do rei quer descobrir uma ilha desconhecida porque espera que esteja melhor ou tenha alguma coisa interesante para oferecer. A empregada que o segue até o estaleiro sai de seu trabalho no palacío porque tem esperança que uma vida de limpar barcos seja melhor do que trabalhar para o rei pelo resto de sua vida.

Essas duas personagens simbolizam a crença do humano de que "a grama do outro lado sempre está mais verde." Somos todos sonhadores, visionários com uma esperança que alguma coisa melhor sempre exista. As vezes aquela esperança fica apagada pela descrença de outras pessoas e nossas próprias falhas, como ficou para o homem quando ele não conseguiu encontrar pessoas para ajudá-lo em sua busca. Mas pessoas que compartilham os mesmos sonhos podem nos ajudar, tão como a mulher encorajou o homem continuar perseguir seu sonho. No conto, não diz se eles acabaram de encontrar uma ilha desconhecida ou não. Mas é assim em nossas vidas também--não sabemos o resultado de nossos esforços até chegarmos no fim. As vezes é um risco intimidador, mas sempre é um risco que valerá a pena.

A CHINELA TURCA, Machado de Assis

"Ninfa, doce amiga, fantasia inquieta e fértil, tu me salvaste de uma ruim peça com um sonho original, substituíste-me o tédio por um pesadelo: foi um bom negócio. Um bom negócio e uma grave lição: provaste-me ainda uma vez que o melhor drama está no espectador e não no palco" (Machado de Assis, A Chinela Turca).

Duarte, o protagonista, está dizendo esse parágrafo no final do conto, depois de passar por uma experiência emocionante em sua subconsciência. Durante o conto inteiro, um velho amigo da família está lendo uma peça para Duarte escutar mas essa peça não é gravada no conto. Duarte cai em um sono profundo e é o sonho dele que acabamos em ler. Na opinão de Duarte, seu sonho é muito mais interesante do que a peça que Lopo Alves, o amigo.

Com essa frase que ele suspira depois de acordar de novo e pensar no que aconteceu, algumas verdades podem ser encontradas. Uma dessas é que a melhor peça não sempre é encontrada no palco, mas na imaginação. Os humanos sempre estão procurando formas de entreterem-se. Geralmente, eles procuram formas externos. Mas Duarte prova para o leitor que muitas vezes, a melhor forma de entreter-se existe na mente de uma pessoa, especificamente no sonho. O sonho de Duarte provou a ser muito mais interesante do que a peça de Lopo Alves. Foi emocionante, louco e parecia ser verdadeiro, uma coisa que realmente aconteceu. A subconsciência foi a forma mais interesante e mais desejável para entreter Duarte, também pode ser para nós.

A MISSA DO GALO, Machado de Assis

"Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. . . levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição. . . entrou na sala, arrastando as chinelinhas da alcova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romantica, não disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro, ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé" (Machado de Assis, A missa do galo).

"A missa do galo" é uma obra que captura a essência do conceito do olhar masculino. O conto inteiro é baseado nesse olhar que transforma a mulher em uma coisa. Nesse caso, o narrador compara Conceição com o seu livro. Antes dela entrar na sala, ele estava lendo "Os Três Mosqueteiros" e estava muito intrigado,  como ele diz, "completamente ébrio" na obra de Dumas. Mas no momento que Conceição entra na sala, ele imediatamente para de ler. O livro não está mais tão interesante. Uma coisa mais intrigante tem chegado e sua atenção está completamente dela agora. Pelo olhar masculino, o narrador a vê semelhante a seu livro, uma coisa que pode ser lida. Ele a descreve fisicamente porque só são as características físicas dela que ele consegue ver.

Se faz a pergunta "por que o narrador está contando esta experiência?" Naquela época, era normal e até esperado de um homem agir de acordo com esse olhar masculino. Era legal tratar as mulheres como objetivos e nada mais. Tal vez o narrador quisesse provar que ele era homem, que ele era capaz de agir como os homens agiam. O leitor não sabe se o que o narrador diz no conto realmente aconteceu assim ou se ele só está tentando provar-se. Mas pode ser suposto que o narrador está usando o olhar masculino para descrever Conceição como ele queria vê-la.

Friday, January 15, 2016

O ENFERMEIRO, Machado de Assis

“Crime ou luta? Realmente, foi uma luta, em que eu, atacado, defendi-me, e na defesa... Foi uma luta desgraçada, uma fatalidade. Fixei-me nessa idéia. E balanceava os agravos, punha no ativo as pancadas, as injúrias... Não era culpa do coronel, bem o sabia, era da moléstia, que o tornava assim rabugento e até mau... Mas eu perdoava tudo, tudo... O pior foi a fatalidade daquela noite... Considerei também que o coronel não podia viver muito mais; estava por pouco; ele mesmo o sentia e dizia. Viveria quanto? Duas semanas ou uma; pode ser até que menos. Já não era vida, era um molambo de vida, se isto mesmo se podia chamar ao padecer contínuo do pobre homem... E quem sabe mesmo se a luta e a morte não foram apenas coincidentes? Podia ser, era até o mais provável; não foi outra coisa. Fixei-me também nessa idéia" (25, O Enfermeiro, Machado de Assis).

O Enfermeiro é uma carta que o narrador está escrevendo para uma outra pessoa, contando uma experiência que teve alguns anos atrás. Nessa experiência, cometeu um erro que agora está tentando justificar. Na citação acima, podemos achar evidência disso. Procópio, o narrador, matou um homem. Aconteceu rápidamente e sem querer, mas ainda assim, ele o matou. Esse homem, o coronel, era muito violento então alguns tal vez pensem que o Procópio estava se defendendo só, mas um crime é um crime, especialmente quando envolve uma morte. As vezes, raramente mas as vezes, tem excepções, mas neste caso, não é. Sim, o coronel estava sendo muito agressivo naquela noite que foi morto, mas ele não ia matar Procópio. O Procópio poderia ter se defendido sem matar o coronel. Até o Procópio sabe que o que fez era errado. Se ele não pensasse isso, ele não estaria escrevendo essas coisas que estão em sua carta. Até ele diz que se fixou em algumas idéias para que não se sinta culpado. Essa morte acontece mais para o fim do conto e depois, o resto está usado pelo Procópio para justificar-se.

Isso também acontece com pessoas da vida real. Pessoalmente, já fiz isso muitas vezes. Temos medo das consequências de nossas ações então tentamos justificar que o que fizemos era para nos defender, ou tal vez não fosse tão errado. Quando nos justificamos assim, não estamos fazendo o que o Senhor quer que façamos. Não estamos nos tornando o que Ele quer que nos tornemos. Estamos submetendo aos desejos do inimigo e não importa o quanto tentamos justificar nossos erros. Se não nos arrependermos, aquele sentimento de culpa estará lá sempre. Foi isso que aconteceu com o Procópio. Ele se justificava e se justificava na mente dele, mas não mudou nada. Ele ficou com aquela culpa até que estava no leito de morte dele. E quem sabe, tal vez ele ainda ficou com aqueles sentimentos depois de escrever a carta porque ainda estava tentando justificar suas ações. A culpa é uma coisa que não podemos ignorar tão facilmente. Só pode ser tirado de nosso coração depois do verdadeiro arrependimento.

Friday, January 8, 2016

A CARTOMANTE, Machado de Assis

"Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camio preferiu não ser nada, até a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir a banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo" (A Cartomante, Assis, Machado de).

Neste parágrafo, o narrador está apresentando os personagens do seu conto. Parece que ele esteja contando os detalhes simples da história, mas se o leitor continuar ler o conto, vai perceber que o narrador está dizendo muito mais do que só uma apresentação de três pessoas interessantes.

No começo desse conto, está dito que Vilela e Camilo são amigos desde infância.  O leitor pode supor que eles são melhores amigos porque faz tanto tempo que se conhecem. Apesar de ser amigos tão bons, levaram vidas muito diferentes e têm personalidades opostas. Uma coisa muito interessante é que além de ser tão diferentes, os dois se apaixonam pela mesma mulher. Como isso pode acontecer?

Na primeira página do texto, a mulher que está na vida deles, Rita, está descrita como uma pessoa tonta e supersticosa, uma pessoa quem não sabe muito da vida. Mas logo depois, o narrador diz que era impossível para Camilo escapar do amor dela. Descreve ela como uma pessoa astuta. Tal vez ela tenha essas duas caras para dois homens diferentes, uma para Vilela e a outra para Camilo.

Uma outra coisa interessante que se apresenta na citação acima é como o desejo vence a amizade. Vilela e Camilo eram amigos por muito tempo mas o desejo atrapalhou esse relacionamento tão forte e destruiu tudo. Podemos ver disso que tem que ter cuidado em nossos relacionamentos com os outros. Uma pessoa pode trabalhar tanto para ter uma amizade boa, mas com algumas tentações e a fraqueza do homem, tudo fica destruido. É como qualquer outra coisa nesta vida. Pode passar meses e meses construindo um edifício grande e lindo, mas os tremores de um terremoto ou as chamas de um incêndio podem derramar e destruir aquele edifício em segundos. Esse conto de Vilela, Camilo, Rita e uma cartomante reforça esse conceito de como as coisas boas em nossas vidas são fragil.

Em fim, esse conto tem muitas lições da vida que podemos aprender. Se cuidarmos bem de nossos relacionamentos que realmente são importantes e não ficarmos distraídos pelas coisas que só parecem boas e desejáveis, podemos ter uma vida mais plena e feliz.