Thursday, March 31, 2016

O MARINHEIRO, Fernando Pessoa

"Terceira (numa voz muito lenta e apagada). - Ah, é agora, é agora. . .  Sim, acordou alguém... Há gente que acorda. . . Quando entrar alguém tudo isto acabará. . . Até lá façamos por crer que todo este horror foi um longo sono que fomos dormindo. . . É dia já. . . Vai acabar tudo... E de tudo isto fica. minha irmã, que só vós sois feliz, porque acreditais no sonho. . ." (pag. 125, Pessoa).

O Marinheiro é uma peça que não entendi de nenhum jeito a primeira vez que li. Mas depois de ler de novo e discutir o significado dela em nossa aula, comecei a entender que é mais do que uma bagunça de idéias--é uma obra que questiona a existência do humano e o que é a realidade.

Aqui, uma das personagens está com medo de alguém acordar e terminar a existência dela e suas duas amigas. Elas não sabem se elas são pessoas reais ou o sonho de alguém, então têm esse medo. Acho que o medo é mais do que simplesmente não existir. Pessoa está tentando expressar o medo que os humanos têm de descobrir o resultado das coisas. A personagem não está expressando seu medo de não existir mais, mas está com medo de alguém acordar porque quando essa outra pessoa, fora da existência dela acordar, ela vai saber se ela realmente existe ou não. Por alguma razão, a situação em que estamos agora parece mais confortável do que virá, no mesmo sentido que não entendemos porque as personagens da peça prefirem ficar no seu estado de questionar sua existência, mas pela reação delas á possibilidade de alguém acordar, podemos ver que elas prefirem ficar na escuridão do que ter um "fim" à noite delas. Nós também somos assim naturalmente. O "fim" para nós é, as vezes, melhor do que a situação em que nos encontramos agora, mas também sempre existe a possibilidade que o fim seja pior e temos medo daquela possibilidade. Temos medo do que não conhecemos, do que não temos certeza, então muitas vezes preferimos ficar na presente situação só para evitar o desconhecido. E é isso que Pessoa expressa nessa citação da peça dele.

Thursday, March 24, 2016

O Berimbau

Banda missionária de capoeira
Artefato: Berimbau (em minha mão acima na foto)
Autor da foto: Rosângela Pinto
Data da foto: 7 de junho 2014
"Venue of Publication" da foto: Brianna in Brazil Blog (http://sisterbriannaball.blogspot.com/2014_06_01_archive.html)

O berimbau é um instrumento com uma origem desconhecida que é usado para acompanhar em fazer música de capoeira e foi introduzido ao Brasil com a chegada dos Angolanos (https://capoeiraaltoastral.wordpress.com/sobre-capoeira/o-berimbau/).
No começo do terceiro ato de O pagador de promessas, dois homens tocam berimbau enquanto alguns outros estão lutando/dançando capoeira num círculo. Se afilia com uma das personajens, Coca, quem é um mestre de capoeira.


Wednesday, March 23, 2016

O PAGADOR DE PROMESSAS, Dias Gomes

"Padre: Este homem teve todas as oportunidades para arrepender-se. Deus é testemunha de que fiz todo o possível para salvá-lo. Mas ele não quer ser salvo. Pior para ele. . .
[Zé] dá ainda um passo em direção á igreja e cai morto.
Padre: (Num começo de reconhecimento de culpa.) Virgem Santíssima!. . . Queria encomendar a alma dele. . ." (Gomes, pag. 151, 153)

Aqui, antes da morte de Zé, o Padre da igreja católica está convencido que Zé é um homem mal e não tem nenhum desejo de ajudá-lo. Ele o vê quase como um filho do diabo porque está tão focado em fazer a coisa certa de acordo com a letra da lei de Deus, mas não com o espírito da lei. Ele é assim porque quer impressionar os homens e provar-se a eles, mais do que a Deus. Depois da morte de Zé, o Padre se dá conta de que aconteceu e sente culpa que não fez mais para evitar o problema. Ele até quer ajudar e encomendar a alma de Zé.

Gomes está ilustrando o que acontece quando somos tão convencidos em nossos caminhos e crenças até que alguma coisa horrível acontece e sentimos culpa por aquela coisa ter acontecido. Somos como um irmão maior arreliando seu irmão menor--tudo é divertido até que o irmão menor se machuca e depois é quando o irmão maior se dá conta do que fez porque sente culpa. Muitas vezes, essa culpa não vem de arrependimento sincero mas porque não quer ser castigado. No momento, o irmão maior vai sentir aquela culpa, mas alguns dias ou algumas horas depois, vai continuar a arreliar seu irmão menor. Acho que foi assim também com o Padre. Ele estava tão absorto na letra da lei que não se deu conta do mal que fez até que as consequências, ou a morte de Zé, se mostraram. Mas ainda assim, só sentiu pena do mal tal vez não porque se arrependeu de verdade, mas porque uma coisa mal aconteceu. Acredito que não muito tempo depois da morte de Zé, o Padre voltou a ser obstinado e um homem que cumpria a lei não só porque era uma obrigação de Deus, mas também porque queria se provar aos outros.

No fim, a diferença entre o Padre na peça e um Padre ideal é o motivo de suas ações. O motivo do Padre na peça era para se provar aos homens e foi por causa disso que muito do que aconteceu aconteceu.

Friday, March 18, 2016

O PAGADOR DE PROMESSAS, Dias Gomes

"Zé: (Balança a cabeça na maior infelicidade.) Não sei, Rosa, não sei... Há duas horas que tento compreender... mas estou tonto, tonto como se tivesse levado um coice no meio da testa. Já não entendo nada. Parece que me viraram pelo avesso e estou vendo as coisas ao contrário do que elas são. O céu no lugar do inferno, o demônio no lugar dos santos.
Rosa: (Refletindo na própria experiência.) É isso mesmo. De repente, a gente percebe que é outra pessoa. Que sempre foi outra pessoa. É horrível.
Zé: Mas não é possível, Rosa. Eu sempre fui um homem de bem. Sempre temi a Deus.
Rosa: (Concentrada em seu problema.) Zé, isso está parecendo castigo!
Zé: Castigo? Castigo por quê? Por eu ter feito uma promessa tão grande? Por ter sido no terreiro de Maria de Iansã? Mas se Santa Bárbara não estivesse de acordo com tudo isso, não tinha feito o milagre.
Rosa: Zé, esqueça Santa Bárbara. Pense um pouco em nós.
Zé: Em nós?
Rosa: Em mim, Zé.
Zé: Em você?
Rosa: Sim, Zé, em mim, sua mulher.
Zé: Que é que você quer? Não dormiu, não descansou?" (pag. 76-77, O pagador de promessas, Gomes).

Quando li essa passagem pela primeira vez, a achei um pouco engraçada. Aqui, Zé e sua mulher estão falando de negócios sérios--Zé está preocupado com a situação espiritual dele (por causa de forças exteriores, não consegue cumprir uma promessa que fez com a Santa Bárbara) e a Rosa está sentindo culpa depois de dormir com um outro homem sem o Zé saber. Ela também está no processo de se descobrir. É claro para Rosa por que Zé está tão angustiado porque ele fala abertamente sobre a situação dele e ela tem estado lá para cada parte da situação, mas ele não faz idéia do que Rosa está sentindo, nem do que ela fez.

Gomes, o autor, pinta uma imagem perfeita do relacionamento típico entre o homem e a mulher. Achei essa parte da peça engraçada porque esse tipo de coisa acontece sempre. A mulher quer que o homem leia os pensamentos dela e o homem nem sabe que existe um problema. Rosa está quase atormentada pela situação emocional dela mas Zé, não entendendo nada, simplesmente faz a pergunta "Não dormiu? Não descansou?" Gomes está exagerando a tendência do homem supor que geralmente tem uma solução física enquanto a mulher sempre busca ajuda emocional.

Thursday, March 10, 2016

CÍRCULO VICIOSO, Machado de Assis

“Mas a lua, fitando o sol, com azedume: / ’Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela / Claridade immortal, que toda a luz resume!’” ("Círculo vicioso", Machado de Assis).

Através da personificação em seu poema "Círculo vicioso", Machado de Assis expressa que pessoas sempre estão buscando ser algo maior e melhor por falta de olhar dentro de si mesmo e reconhecer os talentos e as bênçãos que já possuem. Ele usa a lua como um de muitos exemplos desse concepto em seu poema. Antes de introduzir a lua, Machado escreve de uma estrela que quer muito ter a glória e a luz da lua. Então enquanto a estrela está desejando ser como ela, a lua está cobiçando a habilidade do sol. Porque está tão distraído querendo ser mais como o grande sol, não consegue apreciar sua própria habilidade de refletir e fornecer luz durante os momentos mais escuros da terra. Nem o sol, em toda sua glória, consegue fazer isso, mas é um talento magnífico da lua. Ainda assim, ela só quer ser mais. Para ela, esse talento não é uma coisa que merece reconhecimento ou um elogio porque nem ela o reconhece.

Com esse exemplo da lua, Machado nos ensina que os seres humanos também são assim--eles tem esse desejo irracional de ser algo que não podem ser porque não conseguem ver suas próprias bênçãos ou seus próprios dons e talentos. Eles ficam tão distraídos pelos bens dos outros que não reconhecem a glória de sua própria vida. Uma coisa interessante é que a lua nunca será o sol--não importa o quanto ela deseja que se torna uma bola de fogo, nunca acontecerá. Também existem coisas que eu nunca serei. Não estou dizendo que não devemos correr atrás de nossos sonhos, mas devemos aprender a apreciar o que já temos e ampliar aqueles bens e dons. É depois de agir que tal vez possamos alcançar mais e ficar mais como o que queremos, mas o ato de cobiçar não nos levará para nenhum lugar.

Thursday, March 3, 2016

SÚPLICA, Noémia de Sousa

"Podem desterrar-nos, / levar-nos / para longes terras, / vender-nos como mercadoria, /  acorrentar-nos /  à terra, do sol à lua e da lua ao sol, / mas seremos sempre livres / se nos deixarem a música!" (Súplica, Noémia de Sousa).

Esse poema me tocou muito quando li pela primeira vez. Foi escrito para fazer um ponto da importância da música na cultura da autora. Ela diz que as pessoas cruéis podem tirar tudo, completamente tudo, da vida dela e de seu povo, mas se ainda tiverem a música, eles serão livres sempre e terão tudo que precisam. Acho interessante porque durante o poema inteiro, ela menciona tantas coisas lindas que essas outras pessoas podem tirar da vida dela--a luz do sol, a lua da selva moçambicana, seu lar, tudo que ela tem--mas para ela, são simplesmente coisas lindas. Ela acredita que não precisa dessas coisas para ser livre.

Em nossas vidas, também existem númeras coisas lindas que, muitas vezes, acreditamos que são necessárias para viver, mas realmente não são. Se pensarmos no que realmente é preciso para viver, podemos reconhecer isso.

Se tivermos que tirar tudo de nossas vidas menos uma coisa só, o que ela seria? Para essa mulher, a coisa mais importante, que define quem ela é e a cultura dela, é a música. Cada pessoa tem sua própria versão dessa música. Pode ser família, amigos, natureza, comida, religião. Cada um de nós tem uma "música" que nos liberta e protege nossa existência. Qualquer coisa pode acontecer conosco, mas se tivermos nossa "mùsica", tudo estará bem.